
Em feridas nos pés, o curativo é apenas uma parte do cuidado. Quando a lesão está submetida a pressão repetitiva, atrito ou sobrecarga durante o apoio e a marcha, a remoção do exsudato e a proteção da pele podem não resolver o fator mecânico que mantém o dano. É nesse contexto que o offloading, ou descarga e redistribuição de pressão plantar, entra na avaliação clínica.
A proposta não é escolher um dispositivo de forma automática, mas compreender como a pressão se distribui, quais riscos estão presentes e quais recursos são compatíveis com a condição de cada pessoa. A Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes sobre diagnóstico e prevenção de úlceras no pé diabético relaciona a prevenção à identificação do pé em risco, ao exame regular, à orientação, ao uso de calçados adequados e ao tratamento dos fatores de risco.
O que significa offloading na prática clínica?

Offloading significa reduzir, aliviar ou redistribuir a carga aplicada sobre uma região do pé. Em uma ferida plantar, por exemplo, a repetição do apoio no mesmo ponto pode aumentar o estresse mecânico sobre os tecidos. A descarga de pressão plantar busca diminuir essa concentração de força e proteger a área enquanto a equipe acompanha a evolução clínica.
O conceito inclui mais do que retirar completamente o apoio. Ele pode envolver mudanças na distribuição da carga, adaptação de calçados, palmilhas ou dispositivos de descarga, sempre definidos a partir de avaliação profissional. A escolha precisa considerar localização e características da lesão, sensibilidade, circulação, deformidades, equilíbrio, mobilidade e capacidade de adesão ao cuidado.
Por que apenas trocar o curativo pode não ser suficiente?
O curativo pode proteger o leito da ferida, controlar o contato com o ambiente e contribuir para o manejo do exsudato, mas não elimina sozinho a pressão que incide sobre a área. Se a causa mecânica permanece, a pele e os tecidos continuam expostos a um estímulo repetitivo, o que pode dificultar a evolução do cuidado.
Por isso, a avaliação precisa investigar o conjunto de fatores envolvidos: tipo de apoio, calçado usado, atrito, deformidades, rotina de deslocamento, sensibilidade protetora e presença de doença arterial periférica. O Manual do Pé Diabético do Ministério da Saúde reforça a importância da avaliação do risco e da prevenção de complicações, sem reduzir o cuidado a um único produto ou procedimento.
Isso também ajuda a evitar uma expectativa inadequada sobre o tratamento. Uma cobertura avançada pode ser útil em determinado contexto, mas não substitui a investigação da etiologia, o acompanhamento da perfusão, a análise da pressão e a articulação com a equipe multiprofissional.
Quais recursos podem auxiliar na redistribuição da pressão?
Entre os recursos considerados em planos de cuidado estão calçados terapêuticos, palmilhas, adaptações e dispositivos de descarga. Eles não têm a mesma finalidade, não servem para todas as pessoas e não devem ser apresentados como soluções universais. O recurso precisa ser compatível com a localização da ferida, a anatomia do pé, a mobilidade, o equilíbrio e as orientações da equipe.
Também é necessário observar se a solução escolhida é utilizável no cotidiano. Um dispositivo que aumenta a instabilidade, causa atrito ou não é compreendido pelo paciente pode comprometer a adesão e produzir novos riscos. A educação em saúde, a inspeção periódica da pele e o registro das alterações fazem parte desse acompanhamento.
➔ Veja mais: conheça como a consulta de Enfermagem em Podiatria Clínica organiza a avaliação dos pés e dos membros inferiores.
Como neuropatia e circulação interferem nas decisões?
A neuropatia periférica pode reduzir a percepção de dor, pressão, temperatura e trauma. Quando isso acontece, uma pessoa pode continuar apoiando o pé sobre uma área vulnerável sem perceber a intensidade do estímulo. A Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes sobre neuropatia periférica diabética descreve a neuropatia diabética como uma complicação que afeta o sistema nervoso periférico e pode comprometer a proteção dos pés.
A circulação também interfere na avaliação. A presença de doença arterial periférica, deformidades, histórico de ulceração e alterações da sensibilidade modifica o risco e pode exigir encaminhamento e acompanhamento mais próximos. A pressão plantar, portanto, não deve ser analisada de forma isolada, apenas pela aparência da ferida.
Qual é o papel do enfermeiro em Podiatria Clínica?
O enfermeiro pode participar da avaliação integral dos pés, da identificação de fatores de risco, da educação em saúde, do registro clínico e do acompanhamento da resposta ao plano de cuidado. Também pode reconhecer situações que exigem avaliação de outros profissionais e encaminhar o paciente conforme os protocolos do serviço.
A Resolução Cofen nº 813/2026 regulamenta a atuação da equipe de Enfermagem em Podiatria Clínica e estabelece que o cuidado deve respeitar competências, habilitação técnica, avaliação clínica e legislação profissional. Na prática, isso significa que decisões sobre descarga de pressão, feridas e recursos terapêuticos devem ser tomadas dentro de um processo estruturado, documentado e multiprofissional.
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Como aprofundar conhecimentos sobre offloading e saúde dos pés?
O cuidado de feridas nos pés exige integração entre avaliação clínica, prevenção, educação, análise funcional e trabalho em equipe. Para enfermeiros que desejam estudar a relação entre pressão plantar, lesões e cuidado especializado, a Pós-graduação em Enfermagem em Podiatria Clínica da USCS.
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