
Alterações como dormência, formigamento ou queimação nos pés podem estar relacionadas à neuropatia periférica diabética, uma complicação que afeta os nervos periféricos e pode reduzir a percepção de estímulos. Quando a sensibilidade protetora diminui, pequenos traumas deixam de ser percebidos com clareza e uma lesão pode evoluir antes de ser identificada.
Compreender essa relação ajuda pessoas com diabetes, familiares e profissionais de saúde a reconhecer sinais de atenção e valorizar a avaliação periódica dos pés. Este conteúdo é educativo e não substitui uma consulta ou avaliação individualizada.
O que é a neuropatia periférica diabética?
A neuropatia periférica diabética é uma alteração dos nervos periféricos associada ao diabetes. Esses nervos transmitem informações entre o corpo, a medula e o cérebro. Quando são afetados, a comunicação relacionada ao toque, à temperatura, à dor e à posição dos pés pode ficar prejudicada. O Ministério da Saúde descreve a neuropatia periférica como uma consequência de danos aos nervos e destaca a relação do diabetes com essa complicação.
A forma mais frequente é a polineuropatia simétrica distal, que costuma atingir os membros inferiores de maneira gradual e bilateral. Os sintomas variam: algumas pessoas relatam formigamento, dormência, sensação de queimação, choques ou dor; outras apresentam perda de sensibilidade sem dor evidente. Por isso, a ausência de queixa não garante que a sensibilidade protetora esteja preservada. A Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes recomenda o rastreamento periódico, inclusive em pessoas sem sintomas.
Por que a perda de sensibilidade aumenta o risco de feridas?
A sensibilidade protetora funciona como um sistema de alerta. Ela ajuda a perceber que um calçado está pressionando determinada área, que existe uma pedra dentro do sapato ou que uma superfície está quente demais. Quando essa resposta é reduzida, pressão, atrito, calor, objetos no calçado e pequenos traumas podem continuar agindo sem provocar uma reação imediata.
Na prática, uma bolha, uma fissura ou uma área de vermelhidão pode ser notada tardiamente. Se a pessoa continua caminhando sobre o local, o atrito e a sobrecarga podem ampliar a lesão. O risco se torna ainda mais complexo quando há alterações vasculares, porque a circulação comprometida pode dificultar a recuperação dos tecidos. O Ministério da Saúde relaciona a redução da sensibilidade e a doença arterial periférica ao aparecimento de úlceras e infecções nos pés.
A ausência de dor não significa ausência de lesão. Uma alteração pode existir mesmo quando não provoca desconforto.
Quais sinais merecem atenção?
Dormência, formigamento, queimação, choques, dor noturna e redução da percepção de frio e calor são manifestações que merecem ser comunicadas a um profissional de saúde. Alterações do equilíbrio, sensação de caminhar sobre algodão ou dificuldade para perceber o contato do calçado também podem indicar mudança na sensibilidade dos membros inferiores.
Outro sinal relevante é a presença de uma ferida, bolha, calosidade, mudança de cor ou área de pressão que não provoca dor. A identificação de qualquer alteração deve motivar avaliação profissional, especialmente quando existe diabetes. O objetivo não é concluir um diagnóstico a partir de um sintoma isolado, mas reunir história clínica, exame físico e testes apropriados para definir a necessidade de acompanhamento.
Como é realizada a avaliação da sensibilidade dos pés?
A avaliação começa com a história clínica e a inspeção dos pés. Em seguida, profissionais capacitados podem utilizar instrumentos específicos para investigar diferentes tipos de sensibilidade. O monofilamento de 10 g é usado para avaliar a sensibilidade protetora plantar. O exame pode ser complementado por testes de sensibilidade vibratória com diapasão de 128 Hz, avaliação de reflexos, percepção de temperatura, resposta à picada e observação da propriocepção, conforme a finalidade clínica e os protocolos adotados.
A Diretriz SBD 2026 recomenda combinar um teste de fibras finas e um teste de fibras grossas no rastreamento da polineuropatia diabética periférica. O monofilamento integra essa investigação como avaliação complementar da sensibilidade protetora, e o resultado precisa ser interpretado junto aos demais achados. Por exigir técnica e interpretação clínica, o teste não deve ser reproduzido de forma improvisada em casa para tentar confirmar ou excluir uma condição.
Como o enfermeiro pode atuar na prevenção?
A enfermagem pode contribuir para a prevenção ao incorporar a avaliação dos pés ao acompanhamento da pessoa com diabetes, registrar alterações e orientar medidas de autocuidado compatíveis com a realidade de cada paciente. A inspeção diária dos pés e do interior dos calçados, a atenção a pontos de pressão e o uso de calçados adequados fazem parte de uma educação em saúde que busca reduzir traumas evitáveis. Essas orientações devem ser apresentadas de forma compreensível e verificadas ao longo do acompanhamento.
Também cabe ao enfermeiro reconhecer sinais que exigem avaliação ampliada, organizar o encaminhamento e trabalhar em articulação com a equipe multiprofissional. Uma revisão de escopo publicada na Acta Paulista de Enfermagem identificou, entre os cuidados de enfermagem na Atenção Primária, o exame dos pés, a educação em saúde, o cuidado com feridas, o acompanhamento do controle glicêmico, a visita domiciliar e o encaminhamento para serviço especializado.
Esse trabalho tem caráter preventivo e longitudinal. A consulta não se limita a procurar uma lesão já instalada: ela também permite reconhecer perda de sensibilidade, identificar riscos, orientar a observação diária e fortalecer a continuidade do cuidado na rede de saúde.
Como a formação em Enfermagem em Podiatria Clínica aprofunda esse cuidado?
Para enfermeiros que desejam aprofundar a avaliação, a prevenção e o cuidado dos pés e membros inferiores, a Pós-graduação em Enfermagem em Podiatria Clínica da USCS reúne conteúdos sobre pé diabético, avaliação neurológica e vascular, feridas crônicas e práticas podiátricas. A página institucional informa carga horária de 360 horas, com 144 horas de atividades práticas e estágio, além de formação teórica e prática.
Conhecer os mecanismos da neuropatia periférica diabética e saber estruturar uma avaliação segura são competências que fortalecem a tomada de decisão, a educação em saúde e a atuação integrada.
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