
A termografia do pé diabético e a inteligência artificial podem acrescentar informações à avaliação do risco de lesões. O potencial está em identificar padrões de temperatura e apoiar a análise profissional. Para que esse dado ajude na prevenção, porém, ele precisa ser interpretado junto com a sensibilidade, a circulação, a pele e o histórico de cada pessoa.
Uma imagem térmica não mostra, sozinha, qual tratamento deve ser realizado. Também não demonstra que uma ferida futura foi evitada. A utilidade clínica depende do equipamento, da qualidade da medição, da população avaliada e das decisões que a equipe toma a partir do resultado. É nessa articulação que a tecnologia pode contribuir para o acompanhamento.
O que a temperatura da pele pode indicar no pé em risco?

Diferenças de temperatura podem chamar a atenção para processos inflamatórios em pessoas com diabetes e risco de ulceração. A diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes sobre prevenção de úlceras nos pés recomenda o monitoramento em grupos específicos de maior risco, como parte de um conjunto de cuidados. A recomendação não equivale a indicar o mesmo método para toda a população.
O contexto modifica a leitura do resultado. Uma região mais quente precisa ser relacionada ao exame e à história clínica, sem receber automaticamente o rótulo de infecção. Da mesma forma, uma medição aparentemente normal não elimina outras alterações que mereçam investigação. O objetivo é acrescentar um sinal ao raciocínio clínico, mantendo a avaliação do conjunto.
Qual é a diferença entre termometria e termografia?
A termometria mede a temperatura em locais definidos. A termografia registra sua distribuição em uma imagem, formando um mapa térmico da superfície examinada. Embora ambas trabalhem com temperatura, os dados produzidos e as condições de uso não são idênticos. Por isso, uma recomendação sobre monitoramento térmico não valida automaticamente qualquer câmera ou aplicativo.
Na escolha de um recurso, interessa saber para que ele foi desenvolvido e em quais condições foi avaliado. Equipamento calibrado, condições de captura consistentes e profissionais preparados favorecem a interpretação. Uma imagem colorida pode facilitar a visualização, mas a aparência do mapa não substitui a qualidade da medição nem a justificativa para incorporá-la ao atendimento.
Como a inteligência artificial pode apoiar a análise dessas imagens?
Modelos de inteligência artificial são estudados para reconhecer padrões e organizar informações extraídas de imagens térmicas. Em um estudo de acurácia publicado em 2026, pesquisadores compararam a classificação de risco produzida por uma ferramenta desse tipo com a avaliação de uma enfermeira em 100 adultos com diabetes. Os resultados sugeriram potencial de apoio à triagem.
O estudo foi transversal, com avaliação em um momento definido. Isso limita o que se pode concluir sobre prevenção: concordar com uma classificação clínica não demonstra, por si só, redução de úlceras ao longo do tempo. Os próprios autores indicam a necessidade de validação longitudinal. O resultado deve ser entendido dentro desse desenho, sem transformar o desempenho de um sistema em garantia para qualquer solução comercial.
Quais limitações precisam entrar na decisão de uso?
Um alerta pode ocorrer sem que a alteração procurada esteja presente; uma alteração também pode deixar de ser identificada. Esses erros têm consequências diferentes para a organização do serviço e para a pessoa atendida. Antes de adotar uma ferramenta, a equipe precisa compreender o que ela classifica, como foi testada e quais situações exigem revisão humana do resultado.
Também é necessário saber se os dados usados no desenvolvimento representam o público do serviço. Uma solução testada em condições controladas pode encontrar situações diferentes no atendimento cotidiano. As orientações da OMS sobre ética e governança da inteligência artificial em saúde reforçam a importância dos direitos das pessoas, da responsabilização e de uma governança compatível com o uso clínico.
A documentação deve permitir identificar o equipamento, a finalidade pretendida e as limitações conhecidas. Quando aplicável, a consulta de produtos para saúde na Anvisa integra a verificação sanitária. Esse cuidado não substitui a análise da evidência para a indicação pretendida. Imagens e informações clínicas também precisam de proteção, acesso adequado e uso compatível com a finalidade do atendimento.
Por que o exame clínico continua indispensável?
O risco de lesão não se resume à temperatura. Perda de sensibilidade, circulação comprometida, deformidades e histórico de úlcera ajudam a definir necessidades de acompanhamento. A tecnologia deve dialogar com esses dados, com a observação da pele e com as condições de mobilidade e autocuidado. Um resultado automatizado precisa encontrar um profissional responsável por avaliá-lo e decidir os próximos passos.
Na prática, isso exige combinar coleta de dados, registro e comunicação. É útil que a pessoa compreenda por que um exame foi solicitado e o que acontecerá se houver um alerta. Para conhecer essa avaliação de forma mais ampla, veja como funciona a consulta de Enfermagem em Podiatria Clínica.
Como aprofundar esse olhar na especialização?
Na Pós-graduação em Enfermagem em Podiatria Clínica da USCS, abordamos avaliação vascular e neurológica, pé diabético, prevenção e recursos terapêuticos. A especialização reúne conhecimentos teóricos, atividades práticas e estágio para relacionar os recursos disponíveis às necessidades do cuidado.
Conhecer novas tecnologias inclui aprender a formular perguntas sobre sua utilidade e seus limites. Para enfermeiros que desejam aprofundar a avaliação dos pés e membros inferiores, a especialização presencial da USCS oferece um percurso de estudo conectado ao raciocínio clínico. Conheça os conteúdos e os objetivos do curso.
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