Burnout deixou de ser problema individual: o papel da gestão na prevenção do adoecimento ocupacional

Burnout deixou de ser problema individual: o papel da gestão na prevenção do adoecimento ocupacional

Burnout deixou de ser problema individual: o papel da gestão na prevenção do adoecimento ocupacional

Durante décadas, o burnout foi compreendido predominantemente como um fenômeno individual, associado à incapacidade do trabalhador de lidar com estresse, pressão e sobrecarga. Essa leitura, entretanto, vem sendo progressivamente superada pela literatura científica contemporânea. Hoje, o esgotamento ocupacional é reconhecido como um fenômeno organizacional, fortemente relacionado às condições de trabalho, aos modelos de gestão e à cultura institucional.

Em 2019, a Organização Mundial da Saúde (OMS) incluiu o burnout na Classificação Internacional de Doenças (CID-11) como uma síndrome resultante de estresse crônico no local de trabalho que não foi adequadamente gerenciado, consolidando uma mudança de paradigma: o foco deixa de ser o indivíduo isolado e passa a considerar os sistemas que produzem adoecimento.

Nesse contexto, a gestão em saúde corporativa emerge como um campo estratégico, responsável por articular políticas, práticas e programas capazes de promover ambientes organizacionais mais saudáveis e sustentáveis.

O que caracteriza o burnout segundo a ciência

De acordo com a OMS, o burnout é caracterizado por três dimensões principais:

  • Sensação de exaustão ou esgotamento de energia

  • Aumento do distanciamento mental em relação ao trabalho ou sentimentos de negativismo e cinismo

  • Redução da eficácia profissional

Essas dimensões foram originalmente sistematizadas por Christina Maslach e colaboradores, por meio do Maslach Burnout Inventory (MBI), instrumento amplamente utilizado em pesquisas internacionais.

Estudos publicados no Journal of Occupational Health Psychology e no The Lancet Psychiatry demonstram que o burnout está associado a maior risco de depressão, ansiedade, distúrbios do sono, doenças cardiovasculares e absenteísmo prolongado, configurando-se como um importante problema de saúde pública.

Por que a responsabilização exclusiva do indivíduo é insuficiente

A abordagem centrada exclusivamente no indivíduo — focada em resiliência, autocontrole emocional ou estratégias isoladas de coping — ignora fatores estruturais que sustentam o adoecimento.

Pesquisas conduzidas pelo National Institute for Occupational Safety and Health (NIOSH), nos Estados Unidos, apontam que os principais preditores de burnout incluem:

  • Carga excessiva de trabalho

  • Baixo controle sobre tarefas

  • Ambiguidade de papéis

  • Falta de reconhecimento

  • Lideranças disfuncionais

  • Climas organizacionais tóxicos

Esses fatores são, essencialmente, organizacionais. Assim, responsabilizar apenas o trabalhador não apenas é cientificamente inadequado, como também perpetua práticas de gestão que mantêm ambientes adoecedores.

Burnout como indicador de falha sistêmica

A literatura contemporânea compreende o burnout como um marcador de falhas nos sistemas de trabalho.

Segundo a Harvard T.H. Chan School of Public Health, ambientes organizacionais caracterizados por demandas elevadas e baixos recursos estão diretamente associados ao aumento de adoecimento mental e rotatividade.

Sob essa perspectiva, altos índices de burnout não indicam fragilidade individual, mas sim a necessidade de revisão de:

  • Estruturas de trabalho

  • Modelos de liderança

  • Processos de comunicação

  • Políticas de reconhecimento

  • Estratégias de gestão de pessoas

Ou seja, o burnout passa a ser compreendido como um indicador organizacional, não apenas clínico.

O papel da gestão na prevenção do burnout

A prevenção efetiva do burnout exige intervenções em múltiplos níveis, com protagonismo da gestão.

Diretrizes da American Psychological Association (APA) destacam que programas eficazes de prevenção devem incluir:

  • Redesenho de processos de trabalho

  • Promoção de autonomia

  • Desenvolvimento de lideranças saudáveis

  • Estímulo ao equilíbrio entre vida pessoal e profissional

  • Políticas claras de prevenção ao assédio e à sobrecarga

Essas ações não podem ser pontuais. Precisam estar integradas à estratégia institucional.

A gestão em saúde corporativa atua exatamente nesse ponto: traduz evidências científicas em políticas organizacionais concretas.

Cultura organizacional e saúde mental

A cultura organizacional exerce influência direta sobre a saúde psíquica dos trabalhadores.

Estudos publicados no Journal of Organizational Behavior demonstram que culturas baseadas exclusivamente em alta performance, competitividade extrema e disponibilidade permanente estão associadas a maior prevalência de burnout.

Por outro lado, culturas que valorizam:

  • Segurança psicológica

  • Comunicação aberta

  • Reconhecimento

  • Cooperação

apresentam menores índices de adoecimento e melhores indicadores de engajamento.

A gestão, portanto, não apenas administra processos, mas também molda simbolicamente o modo como o trabalho é vivido.

Programas de saúde corporativa baseados em evidências

A literatura internacional vem enfatizando que programas eficazes de saúde corporativa devem ser baseados em evidências científicas, e não apenas em tendências de mercado.

Segundo revisão sistemática publicada no Occupational and Environmental Medicine, programas que combinam intervenções organizacionais e individuais apresentam melhores resultados do que aqueles focados exclusivamente no indivíduo.

Isso inclui:

  • Avaliação de riscos psicossociais

  • Monitoramento contínuo de indicadores de saúde

  • Intervenções em liderança

  • Acesso estruturado a suporte psicológico

  • Políticas de prevenção

A atuação do gestor em saúde corporativa é fundamental para articular esses elementos de forma integrada.

A gestão em saúde corporativa como campo estratégico

O crescimento do adoecimento mental relacionado ao trabalho vem ampliando a demanda por profissionais capazes de atuar na interseção entre saúde, gestão e organizações.

Relatórios da International Labour Organization (ILO) indicam que transtornos mentais relacionados ao trabalho geram perdas bilionárias em produtividade globalmente.

Nesse cenário, a gestão em saúde corporativa deixa de ser um setor acessório e passa a ocupar posição estratégica nas organizações.

Trata-se de um campo que exige formação específica, visão sistêmica e domínio de fundamentos científicos.

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