
Na clínica psicanalítica com crianças, brincar pode ser muito mais do que uma atividade para tornar a sessão agradável. Jogos, desenhos, histórias e repetições podem abrir caminhos para a expressão de experiências e conflitos que ainda não encontram uma formulação verbal. Escutar essa linguagem exige atenção ao modo singular como cada criança brinca, e cuidado para não transformar cada gesto em um significado pronto.
Brincar é uma forma de expressão, não um código a decifrar
A criança se comunica por diferentes vias. Enquanto brinca, pode inventar personagens, distribuir papéis, repetir uma cena, interromper uma história ou mudar de atividade. Esses movimentos podem ganhar relevância clínica quando considerados no contexto do atendimento e da relação construída com o analista.
Na tradição psicanalítica, Melanie Klein atribuiu ao brincar um lugar central no trabalho clínico com crianças, entendendo-o como uma via de acesso a fantasias e experiências emocionais. Essa contribuição, porém, exige cautela: o brinquedo não funciona como um dicionário universal, no qual cada objeto ou ação teria sempre o mesmo significado. A escuta precisa acompanhar a criança, suas associações e o encadeamento do que aparece na sessão.
O artigo “A criança, a palavra e o brincar: um enlaçamento clínico”, publicado na revista Estilos da Clínica, discute justamente a relação entre brincar, linguagem e posição subjetiva. A reflexão ajuda a lembrar que a criança também fala, inventa, pergunta e associa, e que o brincar não deve ocupar o lugar de sua palavra.
Winnicott e o espaço potencial: brincar com alguém
Donald W. Winnicott amplia essa discussão ao compreender o brincar como experiência criativa que acontece em uma área intermediária entre a realidade interna e o mundo compartilhado. Esse espaço potencial depende de condições relacionais que favoreçam confiança, continuidade e liberdade para experimentar.
Na clínica, essa perspectiva destaca a importância do ambiente e do manejo. A presença do analista, sua disponibilidade e a sustentação do enquadre podem permitir que a criança explore possibilidades, crie narrativas e experimente diferentes posições no jogo. A participação do profissional, entretanto, não significa conduzir a brincadeira para uma conclusão predeterminada.
Pesquisa publicada na revista Fractal: Revista de Psicologia discute o brincar como experiência criativa na psicanálise com crianças a partir de Freud e Winnicott, incluindo vinhetas clínicas e reflexões sobre o jogo do rabisco. O texto enfatiza o brincar como experiência que pode favorecer a criação e a expressão, dentro de um ambiente suficientemente confiável.
O manejo clínico: observar, sustentar e escutar
Na prática, o trabalho clínico envolve mais do que oferecer brinquedos ou interpretar imediatamente uma cena. O profissional observa como a criança inicia e organiza o jogo, como inclui ou afasta o analista, quais temas retornam e se há mudanças ao longo do processo. Silêncios, falas espontâneas e momentos em que a criança prefere apenas conversar também fazem parte da escuta.
A repetição, por exemplo, pode chamar a atenção do analista, mas seu sentido depende da história e das associações daquela criança. Um mesmo jogo pode assumir funções diferentes em contextos distintos. Por isso, interpretações precipitadas correm o risco de reduzir a experiência infantil a uma explicação adulta.
Também é importante reconhecer que brincar não é a única forma possível de expressão. Algumas crianças falam durante boa parte da sessão; outras desenham, contam histórias ou alternam essas formas. O manejo clínico considera essa diversidade e respeita o ritmo do encontro, sem exigir que a criança brinque ou fale de uma maneira específica.
A criança como sujeito: para além do comportamento
Uma escuta psicanalítica procura considerar a criança como sujeito, em vez de tratá-la apenas como objeto de interpretações de adultos. Isso inclui sustentar perguntas sobre o que ela própria produz no encontro e como constrói sentidos para suas experiências.
Essa postura também pede responsabilidade profissional. Uma brincadeira isolada não permite concluir, por si só, que exista um trauma, um conflito específico ou um diagnóstico. A compreensão clínica se constrói ao longo do processo, articulando contexto, vínculo, fala, brincadeira e demais elementos relevantes, sempre respeitando os limites éticos da atuação.
A teoria ganha consistência no encontro clínico
Freud, Klein e Winnicott oferecem perspectivas distintas e complementares para pensar o brincar na clínica infantil. Mais do que aplicar uma fórmula, o desafio está em compreender o que cada abordagem propõe e como seus conceitos orientam a escuta, o enquadre e o manejo.
Para médicos e psicólogos que trabalham ou desejam aprofundar seus estudos em clínica psicanalítica, essa discussão evidencia a importância de uma formação teórica consistente, articulada à reflexão sobre a prática e às singularidades de cada caso.
Conheça a pós-graduação em Clínica Psicanalítica Implicada da Pós USCS e aprofunde sua compreensão dos fundamentos e das questões que atravessam a prática clínica.
Cursos relacionados
Conheça os cursos vinculados a esta notícia.


