
A imagem que alguém publica nas redes sociais é apenas uma parte de sua experiência, mas, em um ambiente organizado por curtidas, comentários e visibilidade, ela pode ganhar um peso particular. Para a clínica psicanalítica, a questão não é classificar quem publica muitas selfies como narcisista. É escutar o lugar que a imagem ocupa na relação do sujeito consigo mesmo, com o olhar do outro e com o desejo.
Narcisismo: muito além da vaidade
Na teoria freudiana, o narcisismo não se reduz à admiração excessiva por si mesmo. Em “Introdução ao narcisismo” (1914), Freud investiga como a libido participa da constituição do eu e das escolhas de objeto. A dimensão narcísica, portanto, faz parte da vida psíquica; ela não equivale, por si só, a um diagnóstico ou a um traço patológico.
A teoria do estádio do espelho, de Jacques Lacan, acrescenta outra perspectiva: a imagem participa da constituição do eu, que se forma também a partir de identificações e da relação com o outro. Essa contribuição permite pensar por que a imagem pode ser tão importante na experiência subjetiva, sem concluir que a cultura digital tenha criado, por si só, uma nova estrutura psíquica.
As redes sociais introduzem condições específicas para essa relação: a imagem pode circular, ser editada, comparada e receber respostas quantificáveis. Curtidas e visualizações tornam algumas formas de reconhecimento visíveis, mas não revelam automaticamente o que cada pessoa busca ou sente ao publicar.
O feed como palco de reconhecimento
A exposição digital pode funcionar como espaço de expressão, pertencimento, criação e contato. Também pode intensificar comparações, preocupação com a aparência ou dependência do retorno alheio em algumas pessoas. O efeito depende de fatores individuais, sociais e do modo como cada plataforma organiza a interação.
Uma meta-análise publicada no Journal of Personality, que reuniu 57 estudos e 25.631 participantes, encontrou uma associação pequena a moderada entre narcisismo grandioso e comportamentos em redes sociais. Os efeitos foram mais fortes em atividades ligadas à autopresentação e ao número de contatos do que no tempo total de uso. Associação, porém, não demonstra causalidade nem permite inferir características clínicas a partir de um perfil online.
Uma revisão sistemática sobre narcisismo e uso problemático de redes sociais também encontrou resultados que variam conforme a plataforma e a forma de uso analisada. Os autores ressaltam limitações da literatura, incluindo o predomínio de estudos transversais. A evidência recomenda cautela com afirmações categóricas como “as redes sociais produzem narcisistas”.
Quando a exposição entra na clínica
Na escuta clínica, o tema pode surgir em relatos sobre a necessidade de mostrar uma vida bem-sucedida, a angústia diante de pouca interação, a comparação constante ou a sensação de desaparecer quando não se é visto. Essas experiências merecem ser compreendidas em sua singularidade: o mesmo comportamento digital pode cumprir funções distintas para pessoas diferentes.
Em vez de tomar a postagem como prova, o analista pode investigar o sentido que ela adquire na narrativa do sujeito. O que está em jogo quando uma publicação recebe pouca resposta? Como a pessoa experimenta a diferença entre a imagem que apresenta e a maneira como se sente? Que lugar ocupam o olhar, o reconhecimento, a intimidade e a possibilidade de falhar? São perguntas clínicas, não uma lista de sintomas para aplicar automaticamente.
A noção de performatividade ajuda a examinar como a identidade é apresentada e negociada em contextos sociais. Ainda assim, convém evitar a oposição simplista entre uma vida “real” e outra “falsa” nas redes. Toda apresentação de si envolve escolhas; a questão clínica é compreender quando essas escolhas se tornam fonte de sofrimento, rigidez ou conflito.
O cuidado com os rótulos
O termo “narcisismo” circula no cotidiano como sinônimo de egoísmo, vaidade ou busca por atenção. Na clínica, seu uso exige precisão teórica. Publicar com frequência, gostar de fotografias ou desejar reconhecimento não basta para estabelecer um diagnóstico de transtorno de personalidade narcisista.
A escuta também precisa considerar o contexto: padrões culturais de visibilidade, exigências profissionais, relações afetivas, experiências de exclusão e formas de pertencimento podem influenciar a presença online. O objetivo não é condenar a exposição, mas compreender o que ela representa para aquele sujeito e como se articula ao sofrimento apresentado.
Uma clínica atenta ao sujeito contemporâneo
Freud e Lacan oferecem conceitos para pensar a constituição do eu, o investimento na imagem e a relação com o olhar do outro. Autores contemporâneos, como Maria Rita Kehl e Christian Dunker, contribuem para refletir sobre sofrimento, intimidade e modos de subjetivação na cultura atual. Essas referências podem dialogar com a clínica sem substituir a escuta singular por explicações gerais sobre a sociedade.
Para médicos e psicólogos, compreender as formas atuais de exposição exige articular fundamentos psicanalíticos, leitura crítica da cultura e atenção ao caso clínico. As redes sociais fazem parte do cenário em que muitos sujeitos vivem; o trabalho clínico começa quando se investiga o sentido que esse cenário assume para cada um.
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