
Em artigo publicado em 2023, Vânia Lúcia Rodrigues Rocha, Orimar Batista dos Reis e Arquimedes Martins Góis analisam desafios e mudanças do adolescente contemporâneo a partir da escuta psicanalítica (REASE, 2023). O trabalho situa questões físicas, emocionais, intelectuais e sociais que podem atravessar essa etapa.
Na leitura proposta neste artigo, essa passagem envolve perdas simbólicas, do corpo infantil, dos pais idealizados e de uma identidade conhecida, e a construção de uma posição própria diante do desejo. O futuro pode aparecer como horizonte de possibilidades, mas também como fonte de desorientação e inquietude.
Neste artigo, a escuta psicanalítica é abordada como uma forma de acompanhar essa travessia sem oferecer respostas prontas. O percurso passa pelo luto da infância, pela angústia diante do porvir e por alguns princípios de presença, tempo e ética na clínica com adolescentes.
A travessia adolescente e o reposicionamento do desejo
Na adolescência, o jovem pode precisar elaborar mudanças em seu corpo, em seus vínculos e na maneira como se reconhece. A travessia pode ser pensada pelo afastamento de referências infantis e pela busca de um desejo próprio. Esse movimento não ocorre de forma idêntica para todos nem segue um roteiro único.
Freud, em Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, e Aberastury e Knobel, em Adolescência normal, compõem parte da bibliografia indicada para pensar as transformações dessa etapa. Esse recorte considera que perdas simbólicas podem coexistir com descobertas e com a procura por novas identificações, sem reduzir a adolescência a uma crise padronizada.
Para a escuta psicanalítica, é importante distinguir a experiência singular do adolescente das expectativas que adultos e instituições projetam sobre ele. Algumas perguntas podem ajudar o profissional a sustentar essa atenção:
- Que referências parecem estar mudando para esse jovem?
- Como ele expressa suas dúvidas e seus desejos, inclusive quando não consegue formulá-los diretamente?
- Que expectativas familiares, escolares ou sociais aparecem em seu relato?
Angústia e incerteza diante do futuro
O futuro pode ser vivido como uma exigência de escolha antes que o adolescente encontre condições para imaginar o que deseja. Na entrevista à Abepar, Christian Dunker aborda as pressões de desempenho e as expectativas de felicidade que podem recair sobre os jovens. Quando o porvir é apresentado como uma meta fechada, dúvidas e mudanças de rota podem ser sentidas como fracasso.
Na entrevista da Abepar, Dunker observa que a preparação para um futuro incerto pode colocar famílias e escolas diante de expectativas conflitantes. Ele também alerta para o risco de tomar projeções sobre o futuro como garantias. O texto não oferece uma fórmula para resolver essa tensão; ele convida a reconhecer os limites do que adultos e instituições podem prever sobre a vida que o adolescente construirá.
A reportagem de 2018 atribui a uma pesquisa então recente a estimativa de que cada geração, desde o pós-guerra, se sentiria de 3% a 4% mais solitária que a anterior. Como a página não identifica o estudo ou sua metodologia, esse número não deve ser tratado como indicador atual ou como dado conclusivo sobre adolescentes. Ainda assim, a discussão apresentada por Dunker aponta para uma questão clínica relevante: sofrimento e solidão podem permanecer pouco visíveis quando se espera que o jovem demonstre apenas satisfação e sucesso.
A angústia diante do porvir não precisa ser imediatamente convertida em um plano de ação. Na clínica, ela também pode abrir espaço para investigar o que o adolescente deseja e o que sente que esperam dele.
Como a escuta psicanalítica acolhe o impasse
A escuta psicanalítica não parte da ideia de que o profissional deva preencher rapidamente os vazios ou decidir pelo jovem o significado de cada manifestação. O recorte clínico aqui adotado considera a angústia como um afeto a ser escutado no contexto da história e das associações daquele adolescente, e não como uma explicação automática para todo comportamento.
No resumo do artigo “Adolescência e a escuta psicanalítica”, Rocha, Reis e Góis (2023) destacam a atenção às palavras que são ditas e às que permanecem silenciadas. Os autores sintetizam essa ideia ao afirmar:
“A escuta ocupa um lugar importantíssimo na psicanálise por ela analisar palavras ditas e silenciadas [...]”
Essa formulação reforça o valor de acompanhar como o jovem constrói sentidos, sem exigir que ele organize a experiência em um relato completo desde o início. Na prática, acompanhar o impasse pode envolver atenção a diferentes formas de expressão, sem transformá-las isoladamente em diagnóstico ou conclusão sobre o sujeito:

Presença, tempo e ética na clínica com adolescentes
O trabalho clínico com adolescentes pede presença e disponibilidade para sustentar um tempo próprio de elaboração. Isso não significa passividade: significa reconhecer que uma resposta útil não pode ser imposta de fora e que a escuta precisa acompanhar o modo como cada adolescente apresenta seu sofrimento, suas perguntas e seus recursos.
A entrevista de Dunker publicada pela Abepar sugere que o sofrimento pode ser maltratado quando não encontra condições de palavra, escuta, compartilhamento e reconhecimento. O psicanalista resume essa preocupação:
“O sofrimento é maltratado quando recusamos a ele três condições: a palavra ou a escuta, o compartilhamento e o reconhecimento.”
Christian Dunker, entrevista à Abepar (2018, [entrevista completa])
O trecho destaca a importância de não reduzir o sofrimento a uma falha de desempenho ou a uma categoria que encerre a conversa. No cotidiano profissional, esse compromisso ético pode ser traduzido em cuidados como:
1. Escutar o que o adolescente traz sem exigir uma narrativa linear ou uma decisão imediata.
2. Diferenciar a fala do jovem das hipóteses formuladas pelo profissional e revisá-las ao longo do trabalho.
3. Considerar o contexto de vida e os vínculos mencionados, sem generalizar a partir de um sintoma isolado.
4. Sustentar limites e condições de atendimento compatíveis com a responsabilidade clínica.
Acolher não é concordar com toda interpretação apresentada nem oferecer garantias sobre o futuro; é reconhecer o sofrimento e manter aberto um espaço para que ele possa ser pensado.
Da escuta clínica à formação profissional
A escuta psicanalítica de adolescentes exige estudo dos conceitos e atenção às situações concretas em que o sofrimento se apresenta. A bibliografia indicada para este artigo — que inclui trabalhos de Freud, Aberastury e Knobel, Kupermann, Kehl e Dunker — oferece caminhos de aprofundamento para pensar luto, desejo, angústia e clínica contemporânea, respeitando as diferenças entre as formulações de cada autor.
Para médicos e psicólogos que desejam ampliar o repertório clínico nesse campo, a formação continuada pode oferecer espaço para aprofundar conceitos e refletir sobre a posição profissional diante da singularidade, do sofrimento e do tempo de cada sujeito.
Se a angústia do porvir convoca perguntas que não cabem em respostas rápidas, aprofunde seu repertório na Pós-Graduação em Clínica Psicanalítica Implicada da USCS, destinada a médicos e psicólogos.
Para ampliar a reflexão, assista também:
Perguntas frequentes
Como a Psicanálise compreende a angústia na adolescência?
Neste recorte psicanalítico, a angústia é entendida como parte de uma travessia subjetiva que envolve perdas, mudanças e reposicionamento diante do desejo. Seu sentido precisa ser considerado na história singular de cada adolescente.
O que significa o luto da infância?
É uma forma de nomear perdas simbólicas relacionadas ao corpo infantil, às imagens idealizadas dos pais e à identidade construída na infância. Não descreve uma etapa igual para todos nem um processo necessariamente linear.
Como a incerteza sobre o futuro pode aparecer na clínica?
Pode surgir em dúvidas e desorientação. Rocha, Reis e Góis também mencionam mudanças de comportamento e sintomas físicos e emocionais entre as questões que podem levar adolescentes à clínica. A escuta psicanalítica considera o contexto e evita atribuir um sentido automático a cada manifestação.
Qual é o papel da escuta psicanalítica no atendimento de adolescentes?
A escuta pode oferecer espaço para que palavras, silêncios e questões encontrem sentidos ao longo do trabalho. Rocha, Reis e Góis enfatizam atenção e afetividade na escuta, sem que isso substitua a avaliação clínica individual.
Por que presença e tempo são importantes na clínica com adolescentes?
Porque acompanhar o impasse sem precipitar respostas ajuda a respeitar a singularidade do adolescente e o ritmo possível de elaboração.
A quem se destina a Pós-Graduação em Clínica Psicanalítica Implicada da USCS?
O curso é destinado a médicos e psicólogos. Consulte a https://www.posuscs.com.br/clinica-psicanalitica-implicada/presencial/6965/94 para informações atualizadas.
Cursos relacionados
Conheça os cursos vinculados a esta notícia.


