Relações que são classificadas por um clique


Postado em 03/01/2018



Numa visita ao Brasil para falar sobre a internet, o jornalista americano Andrew Lewis disse que “Se você não está pagando por um produto, é sinal que o produto é você”. Para testar isso é muito fácil, basta digitar no Google qualquer produto que você tenha interesse e depois verificar o que acontece. Anúncios desse produto irão surgir no seu email, na sua rede social, no seu aplicativo preferido. Não é segredo para ninguém.
 
O modo como você é tratado em diversas instituições comerciais também estão relacionados com este fenômeno. Clientes Platinum no voo tem preferência no embarque, clientes de alta renda nos bancos tem um ambiente exclusivo, e assim vai. 
 
Estes dias eu chamei um Uber para uma corrida. O motorista estava me contando feliz da vida que ele havia se tornado um motorista VIP. Perguntei: qual a vantagem? “Agora eu recebo mais passageiros e tenho preferência para receber clientes VIP´s”, disse ele. Soube por ele que não apenas os passageiros pontuam os motoristas, mas que os motoristas também pontuam os passageiros. Assim, conforme a sua nota o motorista pode optar ou não em te receber. 
 
Isso me lembrou instantaneamente um episódio de uma série inglesa chamada Black Mirror, que muitos leitores devem conhecer. Neste episódio, chamado Nose Dive (traduzido como “Perdedor”), a personagem é uma pessoa aficionada pela rede social. Cada movimento seu é postado e submetido à pontuação de seus colegas da rede. A trama vai se desenrolando até que a personagem se encontra numa vida exclusivamente voltada apenas para responder a expectativa do outro, sem nenhum gesto espontâneo ou de criatividade. Uma vida adaptativa com um único propósito: ganhar pontuação na rede. 
 
Numa passagem muito comovente do episódio, a personagem  se vê as margens do sistema de pontuação tendo perdido quase todos seus pontos e vivenciando o lado cruel do sistema. Ela está desamparada na rua, suja, com frio e molhada, tendo que percorrer 900km a pé e ninguém é capaz de oferecer uma carona ou auxiliá-la, já que sua pontuação é baixa. 
 
Esta é uma característica triste da nossa sociedade de consumo que é a perda dos valores de cooperação e de solidariedade. É a lei do “Cada um por si”, certamente uma consequência do self-made man do capitalismo. 
 
O impacto maior das redes sociais está na perda da espontaneidade e da criatividade. De chegarmos ao absurdo de viver uma vida apenas pelo o que o outro vai pensar. Isso é de uma tristeza enorme, de um vazio muito grande. Ao que me parece, a criatividade está no centro do ser humano. Precisamos sempre dar um sentido criativo para a vida. Um psicanalista que também pensava dessa forma é o Donald Winnicott, que dizia que precisamos encontrar um meio termo entre a realidade externa e a interna. Este espaço que seria sagrado para cada um de nós, onde não estamos nem esmagados pela realidade do mundo, nem isolados numa alucinação e delírio. 
 
Existem inúmeros caminhos para se encontrar este meio de campo como a espiritualidade, as artes, os esportes, os amigos, enfim. Cada um pode encontrar um lugar e um meio de vida conforme seu próprio estilo pessoal onde haja confiança suficiente para você ser você mesmo sem se preocupar. 
 
Ser você mesmo não é algo místico ou de ocultismo, ou como uma essência escondida, pelo contrário, é a face espontânea e criativa de cada um.
 

 

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